Mulheres Girafas

O assunto aqui é intenso e polêmico, e vai tratar de conflitos étnicos. Só quando tive a oportunidade de visitar pessoalmente a tribo das mulheres girafas, pude compreender melhor a situação desse povo e, quem sabe, com minha pequena contribuição, também ajudar.

Tentarei explicar essa questão tão polêmica com as informações obtidas durante a minha visita, das conversas com as mulheres que tive contato e das informações que recebi do guia.

Mulheres Girafas

Perguntas que tentarei responder: Suas motivações seriam apenas crenças ou também interesses econômicos? Que crenças são essas? Qual a origem dessa tradição que beira a crueldade? Como elas vivem? São livres para não seguir a tradição? Como a Tailândia olha para as mulheres girafas que fugiram do Myanmar? Uma visita à tribo das mulheres girafas me deu essas respostas.

Depois de ter lido o post completo você entenderá tudo, e sua visita à essa aldeia terá mais sentido do que simplesmente passar lá para tirar fotos exóticas. Afinal a arte de viajar inclui conhecer diferentes culturas.

Assim como dizia Amyr Klimk… “Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver”

Mulheres Girafas

Quem são as mulheres girafa?

Desde da independência do Império Britânico em 1948, Burma (atual Myanmar) enfrenta tensões religiosas e étnicas devido às divergências de credos e das raças, que geram conflitos armados até hoje.

Diversas minorias étnicas como a Tribo Karen Long Neck foram perseguidas e refugiaram-se do regime militar no norte da Tailândia. Mas o conflito vai mais além das diferenças étnicas. Mais de 30 grupos rebeldes lutam contra o exército birmanês por mais autonomia e controle de territórios com riquezas naturais, como reservas de Jade.

Mulheres Girafas

Como vivem as mulheres girafas?

As famílias vivem em espécies de assentamento de refugiados. Moram em péssimas condições em pequenas casas de madeira, ou palha e bamboo, onde expõem e vendem seus produtos.

Os homens cuidam das plantações e as mulheres e crianças produzem os artesanatos que são vendidos aos turistas que visitam a aldeia.

Como não possuem cidadania tailandesa, elas têm acesso limitado aos serviços públicos como saneamento básico, eletricidade e educação. Também não podem usufruir de assistência médica, mesmo estando expostas às doenças tropicais da região.

Mulheres Girafas

Mulheres Girafas

Mulheres Girafas

As Argolas

As argolas de latão são feitas por artesãos birmaneses, e podem ser usadas ​​ao redor do pescoço, punhos e canelas.

Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, as argolas não alongam o pescoço. A ilusão é dada porque as que as argolas afinam o pescoço e o peso da peça, que pode chegar a 10 kg, exerce pressão sob os músculos do trapézio forçando-os para baixo. Eles acabam desaparecendo entre a clavícula, que dá a impressão que o pescoço cresceu.

As argolas são colocadas desde a infância, em crianças a partir dos 5 anos. Começam com quatro ou cinco anéis e vão adicionando um aro a mais uma vez por ano.  Se possuem alguma contusão ou algum desconforto causado pelo peso de seus colares, podem esticar o tempo. Normalmente a partir dos oito anos de idade a troca ocorre todos os anos. São colocadas no máximo vinte e cinco argolas por mulher.

Mulheres Girafas

As peças não são separadas e sim uma única argola (parecido com uma mola). Quando é hora de acrescentar um novo aro, remove-se todas as argolas num processo que pode demorar até duas horas.

Quando as mulheres girafas tiram as argolas, precisam evitar movimentos bruscos, pois o pescoço ficou muito tempo numa única posição. E demora ainda mais para recolocar, dessa vez uma nova argola mais comprida. Para evitar queimaduras e feridas, as “mulheres girafas” dormem com almofadas em seus pescoços.

A tradição

Existem três teorias para a origem dessa tradição, mas não se sabe exatamente qual é a verdadeira.

A primeira afirma que os colares foram projetados para proteger as mulheres dos ataques de tigres, que agarram as vítimas pelo pescoço, enquanto os homens estavam caçando. Outra versão diz que as argolas eram colocadas para diminuir a beleza das mulheres e evitar que fossem raptadas pelos homens das tribos rivais.

Mulheres Girafas

Mulheres Girafas

A terceira versão diz que seria justamente para embelezar as mulheres girafas. Quanto mais longo o pescoço, mais bonita seria a mulher! E assim elas passaram a usar as argolas douradas como um acessório, pois quanto mais argolas, maior eram suas chances de conseguir um bom partido para casar.

Muitas mulheres continuam usando as argolas para manter viva a tradição, e assim continuam alongando seus pescoços, braços e pernas. Mas, muitas se sentem pressionadas a suportar o doloroso costume só por precisar de dinheiro. Já vou explicar isso melhor. E já existem muitas meninas que não seguem mais a tradição.

Aldeias turísticas – a polêmica

Aqui chega a parte mais polêmica. A Tailândia permite a estada dessas famílias sob status de “refugiados de conflito” em aldeias na região da fronteira do norte da Tailândia. As autoridades tailandesas não permitem que elas se reassentam fora das aldeias, nem deixem o acampamento para trabalhar, estudar ou passear.

Esse regime inspirou a criação de aldeias de turismo que já operam desde 1985 com o consentimento do Governo Tailandês. Só que as taxas de visitação à essas tribos são divididas entre o proprietário da aldeia e o governo!! Ou seja, as famílias não tem a cidadania, e nem direito aos serviços básicos, mas pagam impostos!

Mais de meia dúzia de tribos turísticas existem nas montanhas do norte da Tailândia e na província de Chiang Mai.

Mulheres Girafas

Desde lá muitas mulheres mudaram-se da tribo original para as tribos turísticas para ganhar a vida no turismo com a venda dos artesanatos. Grupos de direitos humanos entendem que existe uma exploração pois com o status de refugiadas as impede de encontrar outro trabalho.

Existem pessoas que falam em até “zoológico humano” devido a exposição das mulheres girafas ao público. Mas o fato é que os turistas se tornaram uma, se não a única, fonte de renda dessas famílias que hoje sobrevivem exclusivamente da venda de artesanatos para os visitantes.

Entendo que essas famílias simplesmente adaptaram-se ao seu novo ambiente, aprendendo a capitalizar com suas tradições. Mas será que a Tailândia não vai olhar para essa situação? Existe um interesse por trás disso tudo? Quantas gerações mais essa situação vai persistir?

Mulheres Girafas

Mulheres Girafas

Mulheres Girafas

A exploração das mulheres girafas

Cerca de 40.000 turistas por ano pagam cerca de US$ 8 (cada um) para visitar a tribo das mulheres girafa.

As mulheres que usam as argolas ganham um salário insignificante de 1500 bahts (cerca de US$ 45) por mês e lucram com as vendas dos artesanatos. Os demais moradores recebem uma cesta de alimentos e artigos de higiene.

Mulheres Girafas
Mulheres Girafas

Mulheres Girafas

E tem mais… Os proprietários das aldeias diminuem seus salários se elas discutem sua situação com os visitantes ou usam qualquer coisa moderna, como telefones celulares ou computadores. Ou se tiram os anéis do pescoço, pois isso reduz a imagem tradicional que os visitantes querem ver.

Você deve ir?

Seria ético visitar essas aldeias? É uma decisão difícil. Bem, eu fui e agora tenho uma opinião mais esclarecida e passei a informar as pessoas sobre todas as controvérsias. Acho que ajudo nesse sentido.

As empresas tailandesas ainda apoiam, mas muitas empresas estrangeiras já desincentivam esse tipo de turismo. Elas desencorajam visitar as vilas porque sentem que a indústria turística incentiva a prática de colocar anéis em meninas novas por puro interesse econômico, sem respeito à tradição. E isso é triste. Mas, se ninguém visitar e comprar seus bens, como vão viver?

Entendo que elas já nasceram com essa tradição, ou seja estão acostumadas, e veem as visitas turísticas como uma forma de ganhar a vida, uma vez que o status de refugiadas limita as oportunidades de emprego. As mulheres da tribo só vão se sentir em um “zoológico humano” se você as olhar assim. Se mostrar interesse pela tradição e cultura provavelmente vão se sentir honradas.

Mulheres Girafas

Mulheres Girafas

Espero que o governo da Tailândia altere esse status e permita acesso aos serviços básicos oferecidos pelos estado, e que melhore suas condições de vida. Que dê oportunidade às novas gerações de optar seguir com a tradição ou não. E peço às organizações que podem ser capazes de ajudar os refugiados, que ajudem e olhem para essa situação!

Se você tomar a decisão de ir, procure uma empresa de turismo que promova uma visita socialmente responsável, que respeite a tradição delas. Usamos a empresa Travel Hub numa viagem de 1 dia saindo de Chiang Mai às 7:30h, e retornando por volta das 20h.

Foi um longo dia, passando também por Chiang Rai para conhecer o Wat Rong Khun (o Templo Branco) e o Golden Triangle, o ponto onde Tailândia, Laos e Myanmar se encontram.

Vai viajar pela Tailândia? Tem vários outros posts aqui.

Gostou do post? Tem alguma dúvida? Se sim, deixa um comentário aqui pra mim. 🙂

Viagens e Outras Historias

Escrito por
Publicado em

Deixe aqui seu comentário!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *